sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

''O morcego'' de Augusto dos Anjos

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

''Vou mandar levantar outra parede...''
- Digo.Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Afogados

 Estamos morrendo, a água subindo, cabeças rolando, crianças chorando por seus pais que saíram pra mergulhar e até hoje não voltaram.
Não sei pra onde olhar, se é pros destroços da velha casa, onde aprendi a fazer chá; se é pro moço caridoso que, lá do norte, tenta me ajudar ou pro resgate trazendo minha água, a minha escova.
 Deito, durmo, nos sonhos. Não durmo. Estará sempre essa ameaça de desmoronamento acima da minha cabeça? Não sei. Ao certo, o pobre é aquele que por linhas comenta coisas efêmeras, desejando ao menos a minha recuperação. Tá doido, seu moço? Venha me ajudar, oras. Pois sim, eu me afogo, mas não nas suas lágrimas.