sábado, 21 de outubro de 2017

O maldito pássaro


Neste instante houve um pássaro
Um desses que revoa, rebate, retoma e recomeça
Houve porque ainda há, não porque estive, mas é.
Sente a ferida de uma casualidade imposta
E diante desta, curva-se à majestade
De poder ser arbitrário e ainda assim, sentido.
Essa nociva criatura que esperneia sem fazer ruído
Espanta males com falso desdém
E despenca em bocas que não lhe cabem por ser pequeno demais
É um ser nocivo para si mesmo
Frenético
Suscetível
Arrancado de galhos por um simples sopro divino
Uma chacota social, esse maldito pássaro.
Já foi negro, foi azul, já até cantou deformidades.
É altivo, com suas penas penteadas e seu bico em singela curva
De uma expressividade inacessível, porém genuína
Não existe outro como o pássaro
Tanto que querem lhe engaiolar
Tanto que querem guardar seu piu
Mas o danado sempre tem um jeito
De entrar no quarto de quem não o estima
E ficar ali, miúdo, quietinho, esperando ser descoberto
Que é a hora que lhe enxotam janela afora

E ele voa livre, de saudade do avesso. 



Ilustração: Whimsical Drawing by OkArt 


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pipa infinita

Ascende ao céu com a presunção de ser maior, altiva. Vai seguindo um curso bêbado, indefinido, se importando mais com o percurso do que com a chegada.

 A conversa sonolenta se desdobra numa casa de velho, com cheiro de vó e filosofias sobre a fugacidade da vida dos outros, nunca a nossa. Diante do consolo de dançar devagar, quando escurece na varanda, o amor consolidado dos velhos chega a ser póstumo de tão jovial, como se o passado tivesse do avesso e a ingenuidade se fizesse presente em um corpinho tão injusto. 
A senhora que conta as memórias desse amor demorado, com voz de criança e um tom que não muda com a excitação, se levanta para finalizar num abraço e, logo em seguida, desaba, em um choro silencioso, que pesa um monte de anos.
Eu mal conseguia olhar direto, tinha uma sede mansa mas uma vergonha danada de estragar o ambiente de saudade. Saudade feito pipa que voa longe, sem grande desafio. que se apercebe numa olhada rápida lá no céu, feito linha dentro d'água, desdobrando-se em impulsos tímidos e nervosos. 
Enquanto confortam a querida velha, eu olho firme para os retratos empoleirados numa mesinha de canto, que contam e valem mais do que os de hoje em dia. Eu pouso o olhar por ali e fico a pensar no amor dos outros, que dura uma eternidade até o segundo por vir e escapar uma linha de pipa. 

terça-feira, 19 de julho de 2016

old man

Estava numa ansiedade só, muita coisa a ser feita, uma cabeça frenética, um tempo escorrido, choro no banho e uma angustia que estava só no começo. Todo dia saia uma hora mais cedo de casa para tomar o ônibus, de cara amarrada, desviando de homens ruins que passam sem rumo. Até que chega, enfim, ao seu destino de partida. E se depara com uma cena que lhe chama atenção. Um senhor, de cabelos branquinhos, joelhos descobertos e um jornal na mão, abrindo sua quitanda no pingo do sol quente, logo ali na frente.

Suas mãozinhas hábeis, tateando os ferrolhos até que, num gesto preguiçoso, abre uma portinhola. A outra se abre por consequência da primeira, ou por obediência ao velho. Ele puxa cuidadosamente uma cadeira, abre o jornal e procura palavras vagas que lhes dê um sabor de novidade.

Aquela cena foi um baque para mim. Sentada defronte, muito quieta, assistindo com olhinhos pequenos para não chamar atenção, fui invadida assim, sem mais nem menos, por um calor meio doce, meio áspero, de gente que vive devagar e escolhe com cuidado o que vai comer. Uma ideia de nostalgia e a certeza que a calmaria arremata o caos do coração em turbilhão.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Memórias de Memórias Póstumas de Brás Cubas(Machado de Assis)

''O maior defeito desse livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e á esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...''


    Estava extasiada que finalmente ia começar a ler esse livro, que comprei num sebo, mas de tamanha qualidade que se compara a um zero quilômetro. Tal minha euforia, meu primeiro Machado! Fui até forçada a ler ''Esaú e Jacó'' na escola, mas não serviu pra nada menos que confirmar minha teoria do desnecessário estupro mental.
    O livro começa com a dedicação ao verme, depois o descaso ao leitor. ''[...]se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.'' Logo em seguida começa a narração, que Brás propõe ser de trás pra frente, da morte ao começo. Já que ele se intitula de defunto autor, e não um autor defunto. Narra a morte como apenas uma transição; no capítulo VII até descreve o delírio pré-mortal. E logo em seguida, o meu preferido, ''Razão contra  Sandice'':

''A Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo: 'La maison est à moi, c'est à vous d'en sortir.' Mas é sestro antigo  da Sandice criar amor às casas alheias.''

    O menino Brás era o diabo; o adolescente triunfou junto da recente Independência do Brasil. O primeiro beijo foi o de Marcela, mais madura e mais esclarecida. Amou Brás ''durante quinze meses e onze contos de réis, nada menos.'' , até antes d'ele partir pra Europa. Voltou depois, bacharel em Direito, por causa da iminente morte da mãe. Se isolou na chácara da família a fim de fugir da platéia depois da dor. Lá teve um romance com a coxa Eugênia, filha da dona Eusébia, antiga protegida da família . Não se casou com a flor da moita ('' Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?'')e desceu a Tijuca por ordem do pai, que queria que se casasse com Virgília e seguisse a carreira política.

    Acabou perdendo o arranjo para Lobo Neves, e de todo, nem ficou tão mal, não amava Virgília, até então. Porém, o pai morreu, se não de desgosto, da ajuda desse. Depois de uns anos, Virgília voltou de São Paulo com Lobo Neves e enfim nasceu o amor bandido dos dois. Nesse meio tempo, Quincas Borba, antigo colega de turma de Brás, apareceu todo emprumado, de botas novas e calças bem cortadas. Herdou uma herança e devolveu um relógio para ressarcir o que tinha roubado de Brás Cubas anos antes.

    Os encontros amorosos de Virgília e Brás já estavam arriscados, devido aos ''olheiros e escutas'', então o nosso defunto autor arranjou uma casinha para tais 'pecados'. Colocou lá a Dona Plácida como guardiã do templo e do segredo íntimo. Tempos depois, já com a desconfiança do marido, Virgília teve que dar adeus ao seu affair e partir com Lobo Neves para o norte, onde foi nomeado intendente da província do Maranhão. As páginas em diante são dedicadas a explicar a minha parte favorita no livro, a filosofia do Humanitismo. De autoria de Quincas Borba, a filosofia afirma que só há uma desgraça: não nascer. Que a dor é pura ilusão.

'' O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que assim adquire forças para transpor a montanha e e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas.


[...]  Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.''

    Brás até tentou se casar e ter um filho, mas sua noiva Eulália, a nhã-loló, morreu aos dezenove anos, vítima da febre amarela. Se tornou deputado e, pela terceira vez na vida, conheceu Virgília. Tinha Brás cinquenta anos. Não conseguindo se tornar ministro do Estado, publicou um jornal oposicionista. Nesse meio tempo, morre Lobo Neves, a um pé de ser ministro, o que deu a Brás tranquilidade e alívio e, até certo ponto, prazer. Apesar do remorso na garganta, ou na consciência.

    No penúltimo capítulo, morre o grande Quincas Borba, não antes de virar 'demente'.
''Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de consciência, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação.''

    Antes da morte de Cubas, não muito tempo depois, teve a invenção e a derrocada do emplasto Brás Cubas. Não alcançou a celebridade do emplasto, não foi ministro, não foi califa, não conheceu o casamento. Mas Brás se contenta com um pequeno saldo:
''Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.''




    Sobre a leitura, sobre o livro: Não senti empecilho na escrita de Machado, que apesar de rebuscada, não é de todo distante. Considerei já um dos melhores livros que já li. Me apaixonei pela escrita do autor, suas ironias e seu humor cáustico. Me empolguei pelo livro se encaixar no Realismo, movimento literário que tanto me atrai. A história é recheada de frases que soltas dão um belo título de fotos no Instagram, mas ficam melhores ainda dentro dessa narrativa de divagação do homem nu e cru.

terça-feira, 18 de março de 2014




    Acredito que qualquer ser humano detêm a capacidade de ser um nazista em potencial. A maldade está tão presente em cada um de nós como o ar que respiramos. A questão é que alguns a desenvolvem, outros a estagnam, uns se fingem de bom moço, outros se fingem de vilão.


    E ela se faz tão presente pelo fato de não ser taxada, no primeiro ato, de maldade. Os nazistas mesmo, por exemplo, não acreditavam que as atrocidades que faziam eram absurdas. Pelo contrário, acreditavam que faziam um bem maior, uma verdadeira limpeza social. Era tudo questão ideológica.


    Quem poderá dizer, então, que daqui a alguns anos não seremos considerados cruéis por, sei lá, utilizarmos o sistema penitenciário?

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Passagem

''Estou pensando em auroques e anjos, no segredo de duráveis pigmentos, em sonetos proféticos, no refúgio da arte. E esta é a única imortalidade de que você e eu podemos compartilhar, minha Lolita. ''


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Janela Discreta

    Subia ao telhado para observar os cônjuges abraços de nove horas quando encontrou, no parapeito de uma janela, o resto de um cigarro recostado miseravelmente sobre os átomos de carbono incineráveis. A auréola vermelha de um batom misógino foi deixada, como que para mostrar que o esplendor não se faz sem dono.
    E ainda assim, Vando continuou a subir. Mas sabe? Não é que não existisse uma amostra de satisfação. Só não era cabível uma mulher amada que não pede sempre um pouco mais. Ele bem sabia que certas damas retribuem melhor do que defendem, mas Vando insistia em subir mais um pouco.
    Depois de um tempo de descanso, ao parar feito estátua pelo calafrio do abraço duro e lento de uma velha porta, nosso bom moço até pensou em voltar e deitar numa dessas cadeiras de balanço que te ninam. Espionar um pouco o curso das formigas rente a porta e estaria pronto para dormir.
    Mas, de alguma forma, se auto-contrabandear era um jeito bom de se sentir em casa. Vando, então, continuou a subir.
    Chegando ao telhado, o binóculos lhe era a extensão ocular que Deus lhe esquecera. Manejava aquele troço todo como o ovo de uma galinha, antes de ser quebrado. A partir daí Vando era Deus mítico, calculava cada diálogo, imaginava cada olhar, sentia na tez ressecada cada toque, até os não dados.
    Quando se sabe o momento mais feliz da vida de alguém ? Como admitir que a glória do outro é só o começo da sua ? O fato é que Vando nem se fazia ali, parado em cima do telhado, baixando o olhar para o calçado maltratado, esparramando alguns grãos de areia com o pé.
    Vando era a maciez da coxa da vizinha do nono andar, o doce feminino e pueril da mulher do sexto; era quando desce a curva no ombro damasco da que lava a roupa. Era o raiar rebatido na pele matinal, com todas aquelas manchas de travesseiro. Assim como era o espaldar do ombro masculino do que se espreguiçava; os cabelos da nuca, todos bem emparelhados, do já dormido. O relevo de um sinal na omoplata rígida de outro algum.
    Ele se fazia em todos juntos e em um por vez. Assumia a alma de amador e, ainda assim, começou a descer. Vando continuou a descer.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Causos da vida citadina

         Estava a pegar um ônibus por esse fim de tarde, quando este me para em frente a uma dessas igrejas bem construídas. Adentrou na cloaca de alumínio uma moça de coque alto, lábios crispados e orelhas sem furos.
         Carregava consigo um papel de aspecto imperativo, quase como uma receita. Sentou-se logo à minha frente e ergueu o bendito papel a fim de ler. Pergunto-me se aquelas sobrancelhas arqueadas sabiam que, a uma poltrona atrás, sentava-se uma moça inquietantemente curiosa sobre leituras alheias.
         Ergui o pescoço sem muito esforço, já que o meu patamar era mais alto. E pus-me a ler, diante tamanha tremedeira, um tópico. “Concorde que o divórcio não é a resposta! O divórcio é exigido apenas em caso de adultério. Mas, mesmo assim, não é exigido, apenas permitido. O perdão é sempre melhor que o divórcio!’’.
         A moça bendita se empertigava na poltrona enquanto rolava os dedos por cada linha ratificada. Talvez estivesse de fato pensando no marido e nas luxúrias da beatice ou, lá se sabe, pensando em furtar alguns dons dessas boas jovens de esquina. O que não notei foi que, enquanto eu estava a descrever a possível batalha da beata envasilhada, uma outra moça, de olhos extremamente grandes e mãos ossudas, estacionada e erguida ao meu lado, esperando a próxima parada, analisava meus pormenores, desenrolados por meus dedos na fina tela de um celular.
         Senti-me intimamente desacatada! Como ousara, sem o mínimo pudor, essazinha vasculhar meus pensamentos a respeito da vida alheia?! Francamente, não se tem mais privacidade nos dias de hoje! 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Do conto em partida

    A cabeça girando, sem saber em que ponto parar.
    Meia dúzia de palavras expulsas no canto da boca, um coro em canto e uma nudez sobre os olhos.


    Glória era dessas fogosas meninas-mulheres que se camuflam em sorrisos verdadeiros. Dessas que até em título querem pôr um ponto. A vida também lhe era a mesma, repleta de olhares furtivos, aromas estreitos e família reunida.
     Teve de ter pulso firme quando um dia lhe perguntaram sobre a culpa de Capitu. Desde então passou a levantar pela manhã com o impulso da tormenta e, ao entrar na água fria, expulsava a pontapés os pensamentos lancinantes sobre afeição, qualquer que fosse. Não era hora! A manhã não é feita para se viver de fato. Flutua-se! Observa-se! Cala-te!
    A menina sobreviveu amada e, logo em seguida, senhora. Brincava de mulher-de-negócio, depois de lolita. De fato nunca foi lembrada, mas sentida. E quando distraída, era tão querida que até se fazia pudor. Mas, aos suspiros, passou por uma nova fase. Glória tornou-se obsessiva, viciada em afeto. Passou a cantar pela manhã, às vezes nem dormia de ansiedade. Brigava com todos e tudo, podiam ser o que quisessem, bastava só um tapa na cara e ela se aliviava. O amor, como para todo viciado, era-lhe minguado, medido. As olheiras a incriminavam e o peito era tão inchado que haviam se encurtado as curvas.
    Os homens, oh, não lhe faltaram. Eram Josés, Augustos, Márcios e até Murilos. Nenhum valia um centavo, mas todos lhe satisfaziam pelo simples fato de acatarem a origem bastarda, alguns até pontuavam bônus com suas depravações à meia luz. À margem de qualquer suspeita, suas ondas ferrugem a camuflavam, sentia-se a candura pulsando na branquidão ossuda da tez. Ao passo que o ardor, crescido da mágoa d'os bem-servidos, era-lhe a principal das meiguices. E a pior. A mais devastadora e dominante.
    Sentia-se cada vez mais perto do seu esplendor, a danada da Glória. Sonhava com o dia em que, sem agonia, algum desses bastardos lhe apunhala-se o peito até que enfim jorrasse toda a vermelha turbação. Às vezes, tinha lá os seus deslizes, quando por hora deixava de ser anágua e passava a ser brinco. Mas a hora de morrer de amor estava por vir. Andava tudo tão quente!
    Até que Glória, sem mais nem menos, decidiu morrer de morte morrida, dessas comuns que a gente só vem em novela. O fato foi que ela não teve clemência de nenhuma das suas pobres almas enclausuradas. Decidiu perpetua-se em bronze em vez de brasa. Consentiu com a vida cheia de graça e, no fundo, a bem amada.Hoje, pode-se encontrá-la por aí, fazendo compras na feira.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

''Como fiz enganos
  De me encontrar
  Como fiz estradas
  De me perder
  Fiz de tudo e nada
  De te esquecer''

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sobre a dádiva e a tortura de poder escolher


    Não sei se fico feliz ou triste demais. Ando numa corda bamba de merda, apostada ficar de luto pela morte de uma das partes, sem nem desbravar com a gana de um ingênuo a outra parte que se faz por vir.  

Sentinela do sono



    Sabe, às vezes gosto de admirar o que é meu num raio de cem metros... A poeira minha, a caixa vazia minha, a prateleira pendendo minha, o guarda-roupa inacabado meu. Aquele escrito sobre um devaneio súbito que esqueci de escrever também é meu. Assim como a formiga que tangencia o vão da porta.
    Os sentimentos do desconhecido que desce as escadas do prédio. As emoções escritas em cartas e bilhetes dentro do baú trancafiadas. O livro divertido porém desprezado por não conter grandes depressões também o é. Até a mãe que dorme no quarto ao lado se diz minha.
     Essa maldita insônia a mim pertence. A dor de cabeça futura com o prejuízo financeiro também. Tem até certos sonhos que esporadicamente são meus. Tudo é meu. Menos eu.

                                   

domingo, 22 de julho de 2012

Valseta


Tu vens e
A realidade é que molhar a minha boca
Suada da tua
Não foi de grande eficácia

Depois sem calor
Te despedes de mim
Só mais uma vez
Pra não falar uma terceira

Tento gastar de toda uma liberdade
Em um dia só
Sem lágrimas póstumas de desalento
Só com a aflição da certeza plena

Depois
Vem tua lânguida face
Vem se espreguiçar em cima de mim
Cobrando o meu afago de sempre

E se enganando ao saber que
Tens a mim o monopólio
Eterna bailarina do teu vai e vem
Mas tu vacilas atento aos meus sinais   


                 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ler um conto


    Ler um conto e se sentir em uma vida, sem pressa para voltar, com um destino já traçado, mas indeciso. Irredutível. Sair dele e virar a página para prontamente começar o outro é quase castigo físico.

    Uma vida não se larga assim tão depressa. Nem o tempo se faz sem pausa. Nem Deus o faz.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cadarço

  O sol saindo e ainda se punha a dormir, um desacato aos outros brasileiros da segunda-feira.
Coloca a mão sobre a mesinha ao lado a ouvir as horas no despertador que não funciona há três dias. Nada funciona. A água escorre dos cabelos crespos para as costas, depois desce e segue o rumo do suor.  Segue a voz que vem da cozinha preparando o café quente.
  Sobe para o seu quarto e continua a procurar algo no dia que funcione.  Calçando o par de tênis velho, fica com a visão aprisionada, mesmo sem notar, no quadro bordado pela vó pendurado acima da cama, lembrando do trabalho da faculdade para entregar no dia seguinte. Não são tantas páginas para ler, ou melhor, tocá-las suavemtente para ler. Vai dar tempo, vai funcionar.  Quando ergue as pontas do cadarço. Alinha. Faz um volta. Entrelaça. E finalmente,  puxa. Cá está o formoso laço bem feito,todo pomposo. O garoto parte para o outro calçado. Os mesmos movimentos, mas com um certo desleixo, já que o pensamento se subverteu na profecia de mais um dia sem muito caso e mais descasos.
  O trajeto de toda manhã, conhecido muito bem pela bengala. O perigo tangenciando esses movimentos por causa de um laço desajeitado, colocando em risco o passo dos dois calçados. Um impecável e outro desleixado. Um que funciona e outro que não serve para isso. O garoto toma o ônibus e encontra uma pessoa prestativa que lhe cede o assento. Quantas pessoas se espremendo em uma só condução.Quantas pessoas? Como os fios de um laço de cadarço, todos juntos e bem alinhados, mas de que adianta se esse cadarço for o desleixado? O que não funciona e põe em risco o trabalho todo bem prestado do outro cadarço ao lado.
  Põe a mão para fora da janela e sente as gotas da chuva de dez horas.A velha ao lado estranha a demora que o garoto leva segurando a chuva. Bem que essa chuva podia ser fina e vagarosa, que levasse o que não cumpre sua função embora. Desce do ônibus e vai logo pisando onde não devia, em uma poça de espelho no qual seu reflexo invisível brandava sem muita definição. Aperta o passo, em um compasso ensaiado com o tênis encharcado para desgosto das outras pessoas. Sala adentro, seguido por pegadas enlameadas, todas elas disfarçadas.Pela voz elegante, afetuosa e quase quente, o goroto percebeu que quem lhe atendia era um daqueles caras com a cara de garçom. Provavelmente alto, de ombros largos e todo alinhado.Mal sabia ele que o cara desviava o dinheiro da agência de empregos. Eram quase onze horas quando ele pediu que o garoto sentasse do outro lado da mesinha caindo as pedaços de tão velha. Foram-se CPF, cartão de identidade e um currículo. Depois um até breve, uma promessa de ligação e uma advertência sobre o cadarço mal amarrado.
  O garoto saiu da sala apagando as pegadas que ele mesmo fez na chegada. Na calçada, aproveitou para se agachar, ajeitando o mal laço. Quando de súbito, sentiu um joelho contra suas costelas e ouviu um baque desengonçado a cair no chão. Tateou a pessoa que lhe atropelara  e sentiu sua face de dor que não poderia se prolongar, devido a pressa. O moço não era muito gentil e nem pediu desculpas pelo esbarrão. Só juntou as velhas folhas que estava lendo, balbuciou alguma coisa sobre falta de dinheiro e seguiu o em linha reta quase como se nada tivesse acontecido.Mas não sabia que o moço entorpecido lutava com contas do orfanato que ele coordenava que estava passando por dificuldades financeiras. O garoto ficou lá, esperando o próximo caso inusitado. Depois levantou, colocou os fones que estavam gritando Sex Pistols e continuou sua jornada com a bengala.
  Resolveu não ir para a faculdade naquele dia, queria fantasiar outros casos inusitados.Aproveitou o caminho diferente que resolveu tomar para deslizar a mão nas construções molhadas pela chuva, ouvir o barulho do anel tilintando nas grades de ferro e sentir o cheiro agradável da grama banhada recentemente. Ah, a chuva! Ela realmente não levou o que não funcionava, mas isso não a culpava ao ponto das pessoas correrem com medo dela. Tão apressadas, se esqueceram de tomar o banho que a chuva dá por dentro. Lembrou que de manhã esperava que nada no dia funcionasse, mas a chuva de verão lhe fez editar o pensamento ao ponto de esquecer o remorso que sentia por pensar que não vivia. As outras pessoas, em suas atividades, quase como um nado sincronizado, sempre de passo apertado. Como um cadarço, o pensamento errôneo de que estavam vivendo passava por elas que eram os buracos do calçado. Só que esses buracos não foram causados pelas pisadas em falso, foram feitos justamente para receber esse cadarço, ou melhor, o pensamento citado. Então, por uma visão racional, estão funcionando com eficiência.
  E de noite, o garoto repousando os cabelos no travesseiro, com a mão na nuca, fez uma revisão filosófica do dia ocorrido. E levou em consideração duas pessoas notáveis, o cara com cara de garçom[aparentemente] e o moço do esbarrão. O cara seria o seu laço pomposo, cheio de nove-horas, o que funcionava e alertava do outro cadarço bastardo. Enquanto esse cara todo alinhado, performático e bem passado era cruzado por esse pensamento-cadarço. O moço seria o laço desleixado, quase deslaçado. Mas esse não funcionava, felizmente.Era atrapalhado, desengonçado, mas tinha a verdade dentro de si.  Não passava por ele o pensamento-cadarço de viver  não alcançando o que se é viver.
  O verdadeiro risco do tombo desenfreado não está no cadarço desleixado, está no outro,o impecável, que de tanto pomporismo se enrosca em si mesmo.Valsando em versos decassílabos de sonetos e que não respeita os versos livres .Acaba por ter que servir único e exclusivamente a ele mesmo, fazendo até Narciso se roer de ciúmes.’’Sem glória, sem fé’’. O que se manifesta é que o perigo dos passos enroscados está nesse verso todo arranjado, manipulado e estável do cadarço bem amarrado.

De veneta


Se tiver que escolher entre uma desequilibrada e uma Amélia, escolha a segunda.
Se é um daqueles com força só nos braços.
A desequilibrada por vezes se tornou Amélia, mas ao contrário da de fato, maquinou a revanche e fez parecer que foi precipitada.
A desequilibrada não escolhe os dias em que se vai viver, ou correr, ou pecar, ou nadar.
Os dias é que a escolhem.
E por aqui não se dizem irresponsáveis, se dizem vivas. E por aqui não se dizem putas, a não ser que escolham.
A desequilibrada não vive em gangorra, como você sabe.
Não busca um amor, busca amar. Amar bem forte, que fique escrito. Com os desejos limpos, mas também os sujos.
Não é boneca inflável, é outro homem.Mas nem sempre é certa de si.
Tem voz, tem vez, é fato. Mas é cheia de vontades sem pé nem cabeça.
Ora, francamente. Alguém já viu pé ou cabeça na paixão?
E é nessa estação que se nomeia desequilibrada. Pois sem paixão, só há Amélia.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O cheiro de chuva caindo no asfalto lembra o que para você?



Quente e seco
Orgânico, acima de vinte átomos de carbono
Toda chuva vem um dia
Exalar o cheiro do abandono

Mil tralhas no chão da vida
Asfalto, mas quem diria
Que um dia, sem pestanejar
Fostes o porão do meu aconchego, do meu lar

Memórias estraçalhadas
Como não lembrá-las
Se esses versos de piche
São amarras como em um fetiche

Ora francamente!
Ainda me vem esse cheiro de chuva
Que cai no asfalto quente
Que de água é repelente
Mas que não consegue repelir a minha insistente
Saudade

Com gosto de café na boca
Um cobertor  que caiba os dois
Yann tocava sem depressa
Como numa reza, eu decorava essa promessa

De viver ao lado teu
Diante do espírito da chuva, que encarnava o asfalto perfumado
Que um tanto desprezado, o lençol limpo sentia ciúme
Para quê? Para o meu corpo, depois são, ser exumado

Mas que maldita memória olfativa
O cheiro de chuva que se foi pelo ralo
A lágrima ameaça do olho cair
Quando passa o carro aspergindo a água da chuva no asfalto

Mentiras revividas
Ao passo que o passo vem a mim
Encardido de asfalto o sapato de carmim
Esquentando o coração valente do afago dessas despedidas

Não me vem mais a avó afetiva na cozinha
Com os grãos de feijão empurrados
Para dentro da boca  trinchada
Oh! Até essa recordação de mim foi tirada

Se me pedisse  um bom retorno
De sangue eu ia ao encontro teu
Sem sangue eu voltaria desse encontro
Do divino amor eu me converti ateu

Mas enquanto eu espero o pedido de reconciliamento
Já se enche de teias o meu sentimento
A boca pintada de batom vermelho
Proclama um discurso direto em frente ao espelho

Se me perguntastes ainda
O que me lembra o cheiro de chuva que cai no asfalto
Eu responderia, vagarosamente,  numa sina
Me lembra o estrondoso ruído do desalento

A paisagem árdua do sofrimento
A textura do falso encantamento
E o gosto amargo e lento
Do desamor por dentro  




sexta-feira, 9 de março de 2012

Amor volátil

É ter com quem ir
Mas ficar em  abstinência
Clamar eterna veemência
Por um efêmero possuir

Ficar quieto
Surdo, mudo
Aceitando exigências
Sem buscar sapiência

Pela cura do não saber
Da ilusão de não viver
Buscando
O que nunca vai se ter

Ora, francamente, não há escrúpulos
Em se amar
Ora, novamente, se é saudade
Que ele vai buscar

Mas o amor não se comporta
Não do tipo que é volátil
Chora, berra, se esgoela
Sem sequer um limite uniforme
Depois se vira e dorme

Esconderijo

 Dúvidas incessáveis, porém meu corpo apela por um ímpar. Não tento esconder, me deixo levar e caio em graças de amor, mesmo porque o meu esconderijo está a léguas dali.
 Me escondo onde todos possam me ver, com minha alma de escrita automática, sou aluna de vários módulos da inconstante presença. Não quero, mas o meu esconderijo sempre se dirigi a mim como um ser onipresente. Ainda não sei porque cargas d'água ainda não me mudei. Pensando bem, se o tivesse feito, precisaria[de fato] me esconder.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

''O morcego'' de Augusto dos Anjos

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

''Vou mandar levantar outra parede...''
- Digo.Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!